Olá, internautas
Nesse fim de semana, aconteceu mais uma edição da Jornada do
Patrimônio. Aproveitei a oportunidade para desbravar a cidade de São Paulo. No
sábado (15/08), tive a oportunidade de conhecer o Museu da Imigração no bairro
da Mooca.
Pertinho dali, mais tarde, aconteceria a apresentação
“Bairros Operários de São Paulo nas novelas dos anos 80” na sede do São Paulo Antiga,
iniciativa de Douglas Nascimento, no Belenzinho. O pesquisador do patrimônio
histórico paulistano enfatizou, na abertura da sessão, que quis sediar a
iniciativa no bairro da Zona Leste carente de atividades culturais.
Logo em seguida, Cíntia Marcucci iniciou a discorrer sobre
as telenovelas da TV Globo gravadas na capital paulista nos anos 80. Listou
Plumas e Paetês, Guerra dos Sexos, Vereda Tropical, Ti Ti Ti, Cambalacho,
Sassaricando, Bebê a Bordo e Meu Bem Meu Mal.
A jornalista demonstrou como, no decorrer dos 10 anos, a visão
da teledramaturgia sobre a cidade de São Paulo alterou com as mudanças na
estrutura econômica e social da metrópole. A industrialização era uma marca de
São Paulo, especialmente nos bairros da Zona Leste. Os trabalhadores moravam
junto às fábricas. Nos chamados bairros operários, como Mooca e Belenzinho.
Vereda Tropical simbolizava essa cidade. Havia uma vila de
trabalhadores, atrás da fábrica, onde as histórias aconteciam na novela. A
atriz Lucélia Santos interpretava uma líder sindical, o que trazia um retrato
sobre os movimentos sindicais que eclodiam naquele momento pré-democracia. Em
Sassaricando, havia uma tecelagem na Mooca. Em Guerra dos Sexos, uma fábrica no
segmento do vestuário servia como ambiente da trama.
Já no final da década, Bebê a Bordo focava a transformação
de uma cidade industrial para uma metrópole de serviços com o retrato de uma
fábrica abandonada que virou moradia. Já em 1990, Meu Bem Meu Mal apresentava uma
empresa de design.
Cíntia Marcucci destacou, em sua exposição, como as
telenovelas viam a transformação do eixo econômico paulista. As fábricas saiam
da capital rumo ao interior e/ou entravam em falência. Como consequência, as
vilas operárias se dizimaram na cidade, impactadas ainda pela especulação imobiliária.
Dentro desse cenário, muitos trabalhadores almoçavam em casa
nos anos 80 pela proximidade da residência com o trabalho. A jornalista
exemplificou como a novela Guerra dos Sexos retratou a mudança que acontecia em
São Paulo com a entrada do vale refeição. Na época, chamado de “cupom”.
Com a demolição das fábricas e das vilas, intensificava a
verticalização. As pessoas começavam a morar mais longe do trabalho. Desse
modo, os personagens da novela de Silvio de Abreu explicavam a novidade, além
de um anúncio específico no intervalo comercial que propagava a ideia de
liberdade ao “comer onde quiser”.
Cintia também frisou que as novelas da TV Globo não eram gravadas
totalmente na capital paulista. “Era uma representação das histórias ambientadas
em São Paulo”, explicou. “Os signos são os mesmos, mesmo que a novela seja
gravada no Rio de Janeiro”, completou.
A jornalista ainda declarou que a emissora platinada tentou
criar um núcleo de teledramaturgia em São Paulo, mais precisamente no bairro de
Santana. O projeto durou pouco. Entre 1982 e 1983. Walter Avancini ficou
responsável pelo projeto que frutificou com a produção da série Avenida Paulista.
Cíntia Marcucci criticou as atuais novelas da Globo que
tentam retratar a capital paulista sem os devidos cuidados com a produção,
mesmo com os avanços tecnológicos que não existiam nos anos 80. A pesquisadora
exemplificou sobre o que aconteceu nos primeiros capítulos da atual Quem Ama
Cuida quando Adriana (Leticia Colin) subiu em um ônibus vermelho na Avenida Paulista,
coloração inexistente da frota paulistana. Ainda cutucou as cenas ambientadas no
metrô Sumaré com saída pela Paulista. A comunicadora defendeu uma melhor verossimilhança
com a realidade.
A palestrante relembrou que, nos anos 80, era muito comum a
TV Globo gravar as telenovelas nas estações Santa Cecília e Marechal Deodoro,
já que a filial da emissora platinada ficava nos arredores da Rua das Palmeiras.
Com a apresentação “Bairros Operários de São Paulo nas
novelas dos anos 80”, Cíntia Marcucci conseguiu demonstrar como a telenovela
serve como espelho de uma era.
Fabio Maksymczuk


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