Olá, internautas
Nesta segunda-feira (31/03), no Centro MariAntonia da USP,
tive a oportunidade de acompanhar a exibição do filme “A Batalha da Rua Maria
Antônia”, dirigido e roteirizado por Vera Egito, e o debate sobre o longa que
reúne 21 planos-sequência, gravados em película 16mm em preto e branco, que
destacam momentos da Batalha da Maria Antônia, em outubro de 1968, com um
retrato de estudantes e professores do movimento estudantil de esquerda, na
Faculdade de Filosofia da USP, e o confronto com o Comando de Caça aos
Comunistas vindos do outro lado da rua, onde fica a Universidade Mackenzie.
Sou formado tanto pela USP, em Relações Públicas, quanto
pelo Mackenzie, em Jornalismo. Moro próximo da Rua Maria Antonia que fica
localizada em Vila Buarque e Higienópolis, na região central da cidade de São
Paulo. Sempre ouvi histórias da batalha entre os estudantes que marca a
história dos bairros e até do Brasil. Meses depois, o governo instaurou o AI-5.
Por isso mesmo, fiz questão de acompanhar o filme no prédio que foi alvo dos
manifestantes da extrema-direita.
Como ressaltado pela diretora no debate, “A Batalha da Rua
Maria Antônia” é um filme com baixíssimo orçamento. Mesmo assim, senti falta da
“batalha campal” entre os universitários da USP e Mackenzie na rua. Além disso,
o longa não foi filmado na Rua Maria Antonia e nem nas dependências do edifício
da USP, que abrigava os cursos de Filosofia e Ciências Sociais, e muito menos
do Mackenzie.
Como dito por Vera, ela escolheu o seu lado da rua e focou
nos uspianos. O roteiro poderia ter abordado quem eram os mackenzistas
pertencentes ao CCC. O filme tem o mérito de não generalizar todos os
estudantes do Mackenzie como apoiadores do Regime Militar. Até mesmo, indaga se,
de fato, eram somente alunos ou também infiltrados do governo autoritário. A
morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães ganhou espaço no roteiro.
A cineasta fez questão de humanizar os jovens retratados com
cenas de “pegação” e relação lésbica para, através da personagem Lilian (Pamela
Germano), simbolizar a liberdade sexual que eclodiu nos anos 60. O ator Caio
Horowicz, que interpreta o líder estudantil Benjamin, se destaca no elenco.
Vera confidenciou que o roteiro começou a ser construído em
2010, durante o clima da vitória de Dilma Rousseff, egressa da luta contra a
Ditadura Militar, para a presidência da República. Porém, as etapas da
finalização do filme passaram pela queda da presidente em 2016 e vitória de
Bolsonaro em 2018. Sua percepção modificou-se com os diferentes momentos
históricos que perpassaram até a filmagem que iniciaria em 2020 e, por conta da
pandemia, adiada para 2022, ainda no clima de apreensão com a reeleição de
Bolsonaro.
A cineasta também revelou que trocou os episódios do
confronto para a noite com a ideia de trazer um clima mais cinematográfico. A
professora titular de Sociologia da USP, Maria Arminda Arruda, que viveu a
batalha da Maria Antonia em sua juventude, ressaltou no debate que o confronto,
na realidade, aconteceu à luz do dia. Vera frisou que “A Batalha da Rua Maria
Antônia” é uma obra de ficção, com personagens fictícios, baseado em fatos
reais.
A mesa do debate contou ainda com a participação do cineasta
André Manfrim, da socióloga Rachel Abrão e da atriz Isamara Castilho que
interpreta Angela.
“A Batalha da Rua Maria Antônia” entra no rol de filmes que
aborda o Regime Militar entre 1964 a 1985. É mais uma visão ao lado de “Ainda
Estou Aqui” sobre um período histórico que ainda é mal estudado e refletido nas
salas de aula e na sociedade brasileira.
Fabio Maksymczuk